A Mercedes está a aprontar o AMG One, o superdesportivo que se vai candidatar ao estatuto do mais rápido do mundo. E já está a apresentá-lo a alguns eleitos, revelando truques, mas também as dúvidas.

 

O fabricante alemão continua animado com o seu radical superdesportivo, que nasceu como AMG Project One e que hoje é apenas conhecido como AMG One. A produção está atrasada, o que não é bom sinal – embora expectável quando se ousa utilizar um motor de F1, sem quaisquer preocupações ambientais, num carro para circular na estrada. Mas a Mercedes, que já vendeu todos as 275 unidades (por 2,2 milhões de euros antes de impostos, o que para o único comprador português deverá representar cerca de 3 milhões), aproveita para revelar de forma controlada e diminuta as características do seu “avião”.

Os trunfos…

A mais recente novidade surge pela mão dos britânicos da Top Gear, que realizaram o vídeo que pode ver abaixo, onde revelaram uma série de trunfos do ousado modelo alemão. A unidade a que tiveram acesso é um protótipo e não daqueles que já circulam em testes, mas sim um dos primeiros, exposto num estúdio. Seria pouco para um modelo normal, mas não no One, cuja exuberância e sofisticação o torna num dos superdesportivos mais aguardados dos próximos tempos, ele que está previsto para 2020 e não no início do ano.

Segundo os que os alemães confessaram aos ingleses, o AMG One terá mais de 1.000 cv (mas não muito mais), o que já aqui tínhamos divulgado, bem como uma velocidade máxima de 350 km/h e a capacidade de ir de 0-100 km/h em 2,7 segundos. Três motores fazem o carro andar para a frente, um acoplado à cambota, para reforçar a potência do motor de combustão, e outros dois ligados a cada uma das rodas da frente, para melhorar o comportamento (através da vectorização do binário) e assegurar locomoção eléctrica, mas apenas durante 25 km e com tracção à frente.

De realçar ainda, no capítulo dos trunfos, o facto de o motor que anima o modelo ser tão parecido quanto possível com o 1.6 V6 que Hamilton utilizou no seu F1 em 2015. Há diferenças, claro, pois a unidade colocada à disposição do piloto britânico, pentacampeão do mundo, tinha apenas que aguentar 2.000 km, ou pouco mais, enquanto o One vai ter de suportar mais. Parte desta adaptação consistiu em limitar o regime, que assim caiu das 14.000 rotações por minuto para 11.000 rpm.

Tal como o motor de F1 de há quatro anos, a unidade ao serviço do One mantém um motor eléctrico acoplado ao turbocompressor, destinado a colocá-lo rapidamente à velocidade de funcionamento, para evitar o turbo lag, e a seguir produzir energia quando é pressão excedentária, além de outro, também com um máximo de 160 cv, associado à cambota do motor V6 de combustão. Para completar o conjunto do One, existem mais dois motores eléctricos, cada um ligado à sua roda dianteira, que por um lado melhoram o comportamento, proporcionando “torque vectoring” e, por outro, garantem um modo eléctrico (exclusivamente tracção à frente) que será capaz de percorrer 25 km. É pouco, mas as baterias de iões de lítio que transporta a bordo, que não devem ultrapassar 6 kWh, não dão para mais.

O mais curioso, e isso sim era desconhecido até agora, é o facto de a marca alemã montar no One entradas de ar dinâmicas à frente – dificilmente uma novidade na indústria, uma vez que modelos como o BMW Série 5 usam-nas há anos -, além de umas alhetas sobre os guarda-lamas frontais, para incrementar o apoio aerodinâmico sobre a frente, também elas dinâmicas, o que significa que apenas “abrem” quando é necessário. A asa traseira é móvel e activa, como acontece em alguns McLaren, Lamborghini e Koenigsegg, com o difusor traseiro a assumir dimensões típicas de um veículo deste exclusivo segmento.

… e as dúvidas?

A revelação a seleccionados órgãos de comunicação social do AMG One, por parte da Mercedes, levanta algumas dúvidas. Para começar, a marca alemã admite que o motor 1.6 V6 de F1 deverá debitar menos de 700 cv, mais precisamente cerca de 640 cv, o que para os clientes que adquirem um “brinquedo” de 2,2 milhões de euros pode (eventualmente) parecer pouco. Menos mal que o AMG One junta três dos quatro motores eléctricos de 160 cv que possui – o 4º serve apenas para recarregar a bateria com os gases excedentários do turbocompressor – para ajudar à festa, que uma vez modulados deverão garantir um total superior a 1.000 cv, mas não muito. Isto enquanto houver bateria, pois com cerca de 6 kWh disponíveis, pouco mais deve servir do que para uns segundos no início das acelerações e mais outros segundos à saída de cada curva.

A Mercedes aposta mais no comportamento do que nas prestações puras, o que dá de bandeja a velocidade máxima à concorrência, reivindicando 350 km/h, o que é compatível com cerca de 700 cv, mas de forma alguma com os mais de 1.000 cv que anuncia. Ao contrário do que acontece com o Bugatti Chiron e o maior adversário do AMG One, o Aston Martin Valkyrie. Dito de outra forma, este é um campo em que o AMG One vai claramente perder para o Aston Martin e para o Chiron, este último com capacidade de atingir agora 420 km/h e cerca de 480 assim que a Michelin homologar os novos pneus para os hiperdesportivos.

Outro pormenor tem a ver com a capacidade de arranque, com o AMG One a reivindicar 0-100 km/h em 2,7 segundos, segundo as informações veiculadas à Top Gear, menos do que o Bugatti (2,5) e menos até do que o Valkyrie, o que se explica por o Mercedes ter menos cavalos, em termos absolutos do que o Aston Martin, e menos também em termos constantes, uma vez que o motor 6.5 V12 atmosférico do Valkyrie fornece 1.146 cv e ainda é capaz de cumprir 100.000 km, ou seja, o dobro do Mercedes.

Quando à capacidade de aceleração, o One anuncia menos de 6 segundos de 0-200 km/h, valor impressionante, mas não quando comparado com o Valkyrie ou o Chiron, que extraem mais cavalos dos seus motores a gasolina. Aguardemos pelos próximos episódios e, sobretudo, pelos primeiros confrontos em pista, sobretudo em Nürburgring, onde todos estes modelos vão tentar ofuscar a concorrência.

Se está preocupado com o investimento, independentemente de todas as virtudes do One, a verdade é que montar um motor de F1 num carro de estrada não é necessariamente uma receita para o sucesso. É claro que limitar a produção a apenas 275 unidades é a chave para não ter problemas em vender toda a existência. Também a Ferrari fabricou 350 unidades do F50 (1995-97), animado por por um V12 de F1 mas com capacidade incrementada de 3,5 para 4,7 litros, que foram todas vendidas. Mas hoje a cotação do F50 é similar à do F40, construído entre 1987 e 1992, motorizado por um mais pequeno V8, do qual foram fabricadas 1.311 unidades.

 

Fonte: Observador